Sunday, November 12, 2006
TV on the Radio - November 9th 2006 / Manchester Academy

A saga da minha ida a esse show vale a pena ser contada. Quem quiser saber apenas do que ocorreu no show em si, vá diretamente para o antepenúltimo parágrafo deste post.
Gostei tanto do álbum “Return to Cookie Mountain” to TV on the Radio que, quando meu amigo Nostromo convidou-me a acompanhá-lo ao show dos caras no Manchester Academy, respondi sem pensar muito que “sim”. Ainda mais por ser no Academy, lugar tradicional de shows em terras britânicas. Então era só comprar o ticket na internet para garantir o meu. Como bom brasileiro que sou, ainda não me adaptei muito bem ao comportamento britânico de comprar tickets para shows com meses, anos de antecedência. Pois bem, não comprei o ticket para o TV on the Radio com antecedência. Mas, sabendo do comportamento britânico, vinha acompanhando pela internet que os tickets não estavam esgotados. Resolvi então comprar apenas na semana do evento. Aí descobri que os tickets eram vendidos pela internet somente com, no mínimo, 10 dias de antecedência. Esquisitices britânicas à parte, pensei “já era”.
No site havia a informação de três pontos de venda: 2 em Manchester, 1 em Liverpool. Liguei desesperadamente para os três (e haja dinheiro para o celular!). Informações conflitantes advindas dos três lugares me levaram à paradoxal conclusão sobre a situação dos tickets de que “têm, mas acabou”. Frustração. Ia perder o show. Mas, na noite anterior ao evento, eis que um milagre ocorre! Nostromo me manda uma mensagem de texto dizendo “parece que tão vendendo novamente os tickets na internet”. “Que maluquice!”, pensei. E era verdade. Estavam mesmo vendendo. Esses promotores culturais britânicos, ô raça! Aí não titubeei. Comprei na hora. Em terras britânicas, brasilidades têm que ter um limite!
Pois foi assim que, numa agradável tarde de outono de uma quinta-feira, 9 de novembro, em terras frias do norte da Inglaterra, rumei da verde Sheffield para a sombria Manchester, um dos principais celeiros do rock britânico. E mais: para o celebrado Manchester Academy! Como tinha que comprar o ticket de trem na hora, resolvi chegar com alguma antecedência na estação de Sheffield. Comprado o ticket, ainda tinha uns 50 minutos de espera. Resolvi, então, para começar a calibrar, beber uma cerveja no Howard enquanto seu trem não vinha. Cerveja finalizada, lá fui eu, acompanhado de meu amigo Nostromo, para Manchester. Peguei o pior trem da minha vida. Um trem podrinho, de apenas 2 vagões. Hardcore total. Mas tava valendo. Quer coisa mais rock n’roll que isso? Fomos em pé. 1 hora de viagem. Aproveitamos para botar o papo em dia.
Chegando em Manchester, após um rápido reconhecimento da área e a constatação de que não sabíamos onde era o local do show, tomamos o rumo certo, graças a informacões colhidas na rua. Lá fomos nós pelas gélidas ruas da Manchester rock city. Tive a oportunidade de “passear” por uma parte do centro da cidade que não conhecia. Uma parte mais degradada, mais pesada, industrial. Prato cheio para os amantes do velho rock n’ roll. A paisagem era típica do rock britânico. Chegando ao local, o prédio da união dos estudantes da universidade de Manchester, o show acontecia no porão, que é onde fica o Manchester Club Academy. Como 2 bandas fariam a abertura para o TV on the Radio, e ainda tínhamos algum tempo, resolvemos parar em um pub do próprio prédio da união para mais uma calibrada. O barzinho era meio mixuruca (diga-se de passagem, bem inferior aos bares da união dos estudantes da universidade de Sheffield), mas a calibrada foi boa porque o preço do pint de cerveja estava em £1,55. “Maravilha”, pensei. “É hoje”. Ledo engano. Isso porque decidimos logo entrar para o tal porão, o Club Academy. Para quê? Ao chegar lá fomos assaltados na cara dura, pois o mesmo pint de cerveja vendido no tal barzinho recebeu um super faturamento e estava avaliado nos £2,45. Obviamente, isso não me impediu de beber mais pints. Mas obrigou-me a fazê-lo com moderação. Uma pena.
Mas a parte decepcionante foi o local, o Club Academy. O pior local de show já visto por mim em (exigentes) terras britânicas. Lugar pequeno, palco com menos de 1 metro de altura, som péssimo. Parecia uma garagem de ensaio de banda de quinta categoria. “Bola fora” para os organizadores do show que botaram uma banda como o TV on the Radio para tocar lá (a bem da verdade, não deveriam botar banda nenhuma para tocar naquilo.) Fiquei curioso para saber como são os Manchester Academy 1, 2 e 3. Devem ser muito melhores que o Club Academy. Mas isso fica para uma próxima oportunidade.
O local não estava lotado, embora estivesse cheio. Isso, de certa forma, permitiu aproximarmo-nos do palco, sem os incovenientes “empurra-empurra”. Deu para ver bem o show. O show em si (que é, afinal, o tema deste post...) foi bom, embora nada de excepcional. Apesar das péssimas condições técnicas para uma banda profissional, o TV on the Radio saiu-se bem. Surpreendeu-me o fato de a banda ser muito mais rock ao vivo, com o uso ostensivo de guitarras distorcidas, bateria com som pesado, coisa que passa despercebida em estúdio. Como era de se esperar, a banda perde um bocado ao vivo em termos de sofisticação, dado o caráter extremamente detalhista do trabalho dos caras em estúdio. Mas a banda compensa isso sendo mais rock. Tv on the Radio é energia pura em palco. E eu que esperava um show mais lento, mais planta, mais lisérgico, mais "viajandão", "cabeçudo"... Nada. Os caras da banda são uns loucos em palco. Na medida do possível, agitaram o frio público britânico. Tocaram quase todo o “Return to Cookie Mountain” e algumas músicas do primeiro álbum. Foi bom. Valeu a pena. Foi uma grata surpresa verificar que a banda tem uma postura muito diferente ao vivo da que tem em estúdio. Gosto de bandas assim. Fogem da “obviedade”.
Finalizado o show, voltamos para a estação de trem. Mas não sem antes pararmos no The Salisbury para uma última cerveja a um preço honesto. Bar rock, bacana, ao pé de uma ponte por onde passa o trem. Cenário tradicionalmente rock. Decadente, com trens e indústrias para todo canto. Um colírio para os olhos dos amantes de rock.
Chegada a Sheffield: 1h15min da madruga.